O crescimento expressivo do número de centi-milionários (aqueles com mais de 100 milhões de dólares em ativos líquidos) não apenas revela a concentração de capital contemporânea, como também oferece lições sobre a forma como grandes empresários estão reorganizando seu patrimônio frente aos novos riscos globais.
Segundo o Centi-Millionaire Report 2024, há atualmente mais de 29 mil pessoas no mundo que integram esse seleto grupo, número que cresceu 54% em apenas dez anos.
O dado mais inspirador, contudo, está na origem desse capital: cerca de 60% desses indivíduos são empreendedores e fundadores de empresas. São construtores, e não herdeiros, de riqueza. Pessoas que, como muitos empresários brasileiros, transformaram capital de risco em patrimônio real e que hoje investem tempo e inteligência em sua proteção e continuidade.
Nos Estados Unidos, centro tradicional da riqueza privada, observa-se um comportamento que chama atenção. Empresários vêm buscando alternativas de proteção jurídica e fiscal em outras jurisdições. As motivações são claras, tais como o aumento da carga tributária, discussões legislativas sobre taxação de ganhos não realizados e instabilidade econômica. Em resposta, cresce a demanda por ambientes regulatórios mais previsíveis, com programas de residência qualificada e segurança jurídica de longo prazo.
Esse mesmo padrão se intensifica no continente asiático. Cingapura, Hong Kong, Pequim e Xangai figuram entre as dez principais cidades do mundo em número de centi-milionários, todas com projeções de crescimento superiores a 100% até 2040.
No Oriente Médio, cidades como Dubai, Abu Dhabi e Riyadh caminham na mesma direção. O que esses lugares oferecem não se resume à carga tributária atrativa, mas inclui estabilidade institucional, respeito contratual e liberdade de circulação patrimonial.
Em contraste, centros tradicionais da Europa, tais como Londres, Paris, Zurique e Madri, vêm perdendo protagonismo, apresentando crescimento estagnado diante de legislações rígidas e insegurança política.
A mudança, portanto, não é apenas geográfica, mas conceitual. O capital contemporâneo não busca exclusivamente retorno financeiro, mas sim a combinação entre rentabilidade e previsibilidade jurídica. O empresário global passa a considerar, com cada vez mais naturalidade, a relevância da jurisdição em que seu patrimônio está juridicamente ancorado.
É nesse ponto que as lições da elite patrimonial global dialogam com o contexto brasileiro. No Brasil, empresários operam em ambientes desafiadores, enfrentando margens comprimidas, reinvestimento constante, alta carga tributária e dependência de contratos de médio e longo prazo.
Recentemente, um exemplo concreto reforçou a necessidade de estratégias estruturadas. Após declarações públicas sobre o “tratamento dado aos EUA”, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre exportações brasileiras, um salto considerável em relação aos 10% anteriores. A medida, carregada de conteúdo político, repercute diretamente em setores como o agro, o aço, o petróleo e a carne bovina, elevando o custo de produção nacional, pressionando a inflação e expondo a fragilidade de relações comerciais.
Esse episódio, que reúne geopolítica, economia, retaliação e desequilíbrio comercial, gera efeitos internos concretos, atingindo empresas e cadeias produtivas de forma direta.
Para determinados perfis de empresas, é possível considerar, de forma lícita e estrategicamente fundamentada a modificação da residência fiscal e a diversificação de ativos em diferentes jurisdições. Essas estratégias, se realizadas de forma correta, criam um sistema de gestão patrimonial sofisticada, que amplia o leque de proteção em tempos de instabilidade.
Como destacou o Dr. Juerg Steffen, CEO da Henley & Partners, pioneira na criação do conceito de migração por investimento, em tempos incertos, ter acesso a múltiplas jurisdições nunca foi tão importante.
Embora esse movimento seja silencioso, seus efeitos são concretos. Novos polos de influência estão sendo formados, normas jurídicas locais estão sendo revisitadas e a interdependência entre capital, política e estabilidade institucional nunca foi tão evidente.
Por isso, quem acompanha essas movimentações poderá extrair aprendizados que orientarão soluções juridicamente sustentáveis, coerentes com a realidade brasileira e com os objetivos específicos de cada grupo empresarial.